Educação sem Distância em Tempos de Distanciamento

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(atualizado em 3 de maio de 2020)
Nesses momentos de reclusão muita gente está revirando baús e rememorando coisas já quase esquecidas. Também estamos redescobrindo o prazer de certos hábitos simples que pareciam confinados no passado. Para marcar esse momento estou "ressuscitando" uma de minhas primeiras fotos de perfil (dos tempos do saudoso Orkut), com a qual tentava me mostrar mais próximo, "saindo" da tela. 

Sendo "distanciamento" a palavra do momento, também me lembrei de um artigo que publiquei lá nos idos de 2002, na Revista Brasileira de Aprendizagem Aberta e a Distância, que intitulei "A Distância que Aproxima". 

Quem não conhece alguma história de amor a distância em que a ausência do contato físico, em vez de enfraquecer a relação contribuiu pra torná-la ainda mais intensa? Se isso já era verdade na época de meus pais, que, separados por uma guerra ao longo de 5 anos, namoraram via lentíssima e irregular troca de correspondências, imagine-se hoje com vídeo-chamadas em tempo-real? Infelizmente no outro extremo, durante o longo período de quarentena que atravessamos, temos notícias de brigas e até separações causadas por, digamos, "excesso de proximidade". Outra coisa que me vem à lembrança é uma fala bem antiga de meu amigo e referência, Prof Fredrick Litto, fundador e presidente da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância), sobre ser comum alunos se sentirem mais próximos de seus professores na educação a distância do que em muitas aulas expositivas presenciais (prática predominante na época). Pois é, a distância pode aproximar e, por outro lado, a proximidade física não é garantia de redução de distanciamento psicológico, em especial em contextos de ensino-aprendizagem

Desde a publicação daquele artigo de 2002 venho pesquisando e trabalhando com a redução de distâncias na educação por meio de tecnologias interativas, culminando em 2010 com a publicação do livro "Educação sem Distância", hoje em sua segunda edição. Uma das coisas que venho defendendo, por mais de duas décadas, é que a redução de distâncias não é inerente à tecnologia ou à modalidade ("presencial" ou "a distância") e que essa deve ser buscada, via metodologia e tecnologias, qualquer que seja a modalidade. 

Há algum tempo predominava um certo comodismo de que bastaria estar com os alunos em sala de aula que a proximidade estaria garantida. Já em sentido oposto, com relação ao ensino remoto havia forte preconceito de que não seria possível a esse competir com a sala de aula convencional.  Esse preconceito vinha dos tempos em que a única tecnologia disponível para essa aproximação era a correspondência, e não mudou muito com a chegada de rádio e televisão, todas mídias unidirecionais, que não possibilitam interatividade em tempo-real. Mas com as tecnologias interativas hoje disponíveis não existe limite para as possibilidades de aproximação aluno-professor, aluno-aluno e aluno-conteúdo, seja na modalidade presencial, a distância ou híbrida. Infelizmente, ainda que não sendo mais o comportamento predominante, o comodismo do presencial e o preconceito contra o virtual persistem até hoje em algumas instituições e áreas do conhecimento assim como, infelizmente, na cabeça de muitos professores, alunos e pais.

Mas eis que chega a pandemia e com ela a interrupção das aulas "presenciais" (coloco entre aspas porque em aulas a distância o aluno também pode estar presente). De um dia para outro instituições, professores, alunos e pais se viram frente a uma realidade em que a aprendizagem e o ensino remotos seriam a única possibilidade. Apesar dos óbvios problemas que essa nova realidade trouxe, seja de infra-estrutura, de disciplina ou de falta de preparo, se percebe que muitos desses atores estão não apenas conseguindo superá-los como estão pensando: "por que não fizemos isso antes ? ".  O que não tínhamos conseguido em décadas parece que a "guerra" contra a pandemia está conseguindo provocar em apenas algumas semanas: derrubar amplamente barreiras e preconceitos contra a educação a distância (EaD).

Sendo assim, caro colega educador(a), nesta minha primeira postagem durante a pandemia apresento algumas dicas aos que estão descobrindo a "dor e a delícia de ser" (obrigado Caetano) presentes a distância. Participe também nos comentários. Coloque suas dicas, descreva suas experiências, apresente problemas e soluções. Cuide-se. Logo tudo isso passar, mas que as boas experiências e aprendizados ao longo desse período fiquem e prosperem . 

Romero Tori

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Autoria desta tira: Amábile Piacentini
Dica 1: "O ótimo é inimigo do bom"
Meu saudoso amigo Claudio Bueno, que foi um grande e criativo designer com quem muito aprendi, costumava me lembrar da frase acima quando estávamos para cair na tentação de fazer mudanças radicais já numa fase avançada de um projeto, no anseio de tornar melhor algo que já estava bom. Esse pensamento é muito válido também em tempos de "guerra". Você não estava preparado(a) pra essa situação, sua disciplina não estava planejada para ser a distância, sua situação familiar e sua estrutura caseira podem não ser as mais adequadas. Então pare de se cobrar uma atuação excelente. Não há tempo para se capacitar em longos cursos, cheios de teorias e atividades. Faça o melhor dentro de suas possibilidades. Isso já será muita coisa. Seus alunos, colegas e superiores saberão ser compreensíveis com eventuais falhas. Aprenda fazendo. Seja você mesmo e não tenha medo de errar, nem de reconhecer eventuais erros e, muito menos, de mudar. 

Dica 2: Vídeo-aula ou aula online ?
Para quem nunca gravou vídeo-aula não recomendo começar por aí. Se possível, comece com aulas online, ao vivo, que são mais próximas da forma como você estava acostumado em sala de aula. Se errar algo é ao vivo, você conserta na hora, como sempre fez em suas aulas convencionais. Hoje já nem dá para dar a desculpa de que não sabe "falar para uma câmera" porque até nossos avós já fazem isso com naturalidade pelos aplicativos de comunicação instantânea. Há também, na atividade online, a vantagem da participação dos alunos. A interatividade reduz distâncias e lhe dá feedback instantâneo, permitindo que explique de outra forma algo que seus alunos não estão entendendo, aborde assuntos correlatos trazidos pelas perguntas, enfim, faça ajustes em tempo-real, como numa velha e boa aula "presencial". Aliás, como já mencionado, numa aula online todos estão presentes e deveria também ser chamada de "presencial". Saber que está conversando com seus alunos e não apenas com uma câmera, ajuda o professor a se soltar e a focar no ensino e não em "como estou me saindo nessa gravação". Recomenda-se que sua aula online seja gravada e disponibilizada a fim de que alunos que a perderam (alguns poderão ter tido problemas pessoais ou de conexão que os impediram de assistir ao vivo) ou que desejarem rever alguma parte possam fazê-lo. Veja que já temos aqui uma vantagem em relação às aulas convencionais em sala, que em geral não são gravadas e, quando são, o resultado não costuma ser muito bom. 

Outra dica: se possível interrompa a gravação ao final de cada tópico e reinicie para o próximo, gerando assim vídeos mais curtos, cada um com um tema bem definido. Os alunos gostam de vídeos curtos e detestam ficar procurando determinado assunto dentro de um vídeo longo. Após um período de "estágio" com aulas online ao vivo pode passar para próxima etapa: gravar vídeo-aulas (sempre vídeos curtos abordando tópicos específicos), pedir que alunos assistam, estudem e tragam dúvidas para discussão ao vivo online. Essas discussões também podem ser gravadas. Pronto. Você estará aplicando o famoso conceito de "sala de aula invertida", em que alunos assistem vídeo-aulas em casa e desenvolvem atividades interativas, discussões e esclarecimentos de dúvidas na sala de aula com o professor, só que sem a sala de aula. 

Agora me sinto no dever de alertá-lo(a): prepare-se para ouvir de seus alunos que preferem suas aulas gravadas.  Não fique chocado(a) com isso. Eles continuarão gostando de conversar, discutir, esclarecer dúvidas e até socializar com você ao vivo. Mas poder rever sua aula sempre que desejarem é um grande diferencial. Se isso acontecer sugiro aproveitar a oportunidade e começar de vez a utilizar o modelo da "sala-de aula invertida". 


Dica 3: Como controlar presença ?
Achar que em sala de aula o controle de presença é infalível e que "a distância" seria impossível é apenas preconceito. Listas de presença podem ser assinadas por terceiros (ou o aluno pode deixar a sala após assinar) ou o aluno pode estar fisicamente presente mas sua mente estar ausente. Em aulas online é possível pedir que o aluno se manifeste a qualquer instante, dá para controlar entrada e saída, há interações via chat, e tudo pode ser gravado. Alguns colegas tem optado por controlar entregas de atividades para computar "presença". Mas neste momento o foco não deve ser o de "controle de presença", até porque muitos podem ter dificuldades para acessar as aulas nos horários em que acontecem . Devemos nos focar em oferecer meios para que alunos de fato interessados em aprender tenham oportunidade de fazê-lo, online ou offline. As avaliações se encarregarão de verificar quem de fato aprendeu. Mais importante que "controlar" é "motivar" seus alunos a acompanharem e aprenderem sua matéria. Uma boa estratégia é propor atividades entre os pares, pois estudar em grupo é mais motivante que solitariamente.


Dica 4: Como avaliar ?
Avaliar é um grande desafio, mesmo em cursos "presenciais". Provas são criticadas por muitos educadores e sujeitas a fraude até mesmo no presencial, o que dizer no virtual ? A própria legislação de EaD prevê que provas devam ser realizadas presencialmente. Bem, pelo meu conceito de "presencial" isso incluiria avaliação online, mas não é esse o espírito da lei. O que muitos colegas tem feito é postergar as provas (aqueles, claro, que ainda usam esse instrumento de avaliação) para quando retornarem às atividades presenciais e mantendo avaliações formativas durante as atividades a distância. Algumas avaliações podem facilmente ser adaptadas para o modo online. Há muito tempo, antes mesmo da pandemia, que os seminários e trabalhos de meus alunos de pós-graduação não são apresentados em sala de aula. Peço que cada aluno, ou cada grupo se for o caso, grave um vídeo com sua apresentação, que todos devem assistir antes da aula, durante a qual discutimos os trabalhos, com críticas, perguntas e sugestões apresentadas pelos pares. Além de eu avaliar a apresentação em vídeo, avalio também a participação durante a aula e a qualidade das intervenções. Dessa forma todos se envolvem com os trabalhos dos colegas e a atividade em sala fica mais motivante e produtivas que naquelas chatas e burocráticas aulas de apresentação de trabalhos. Transportar esse modelo para uma versão totalmente online é muito simples e funciona até melhor que da forma tradicional. Há diversas outras possibilidades de avaliação em tempo-real, como quizz, preenchimento de questionários online ou até mesmo chamada oral. Mas o mais importante nesse momento é a avaliação formativa. Postergar as avaliações somativas pode ser uma boa solução.


Dica 5: Qual tecnologia é melhor ?
Essa é uma dúvida recorrente de quem deseja passar a usar tecnologia na mediação de suas aulas. Na verdade não há tecnologia "melhor". O que deve ser buscada é a tecnologia "mais adequada", entre as disponíveis,  para dar conta da metodologia que se deseja empregar. É um erro atribuir ao meio (ou seja, à ferramenta, à tecnologia) a responsabilidade pela qualidade ou eficácia da aprendizagem. Uma mesma mídia pode ser um grande sucesso ou retumbante fracasso, dependendo da metodologia, da forma e do conteúdo envolvidos. É comum a gente ouvir críticas ao "powerpoint", mas já assisti a muitas apresentações em que essa ferramenta é usada de forma tão harmoniosa e pertinente que até esquecia se tratar dessa tão conhecida, e por muitos detestada, mídia. O mesmo podemos dizer da lousa e giz. Quem não se lembra de apresentações péssimas mas também de aulas maravilhosas baseadas nessa mesmíssima mídia ? Então, comece pela metodologia que você gostaria de aplicar e analise os recursos oferecidos pelas tecnologias disponíveis (e hoje são muitas), mas dê preferência pelas que sua instituição estiver recomendando. Tecnologia boa é aquela que permite executar as atividades que a metodologia demanda. 

Na dica 4 dei um exemplo de adaptação de uma metodologia que eu já aplicava em sala de aula. Para tanto um desses serviços de videoconferência comuns (há diversos gratuitos e muitas escolas possuem um licenciado ou de gratuito de sua preferência, para o qual você terá facilidade de suporte) foi mais do que suficiente para aplicá-la. Se sua metodologia é baseada em discussões, talvez uma ferramenta de fórum resolva. Se há necessidade de mostrar estruturas tridimensionais podem ser considerados ambientes virtuais em que os participantes em vez de entrar com vídeo participam com seus avatares e a manipulação de objetos tridimensionais fica facilitada. São muitas as possibilidades, mas nunca parta da ferramenta. Parta da metodologia para então selecionar o meio.


Dica 6: Onde encontrar material de apoio ?
Existem muitos materiais, ferramentas e ambientes disponíveis online. Cito apenas alguns:


Repositório de recursos educacionais digitais do MEC: plataformaintegrada.mec.gov.br

Recursos educacionais abertos: aprendizagemaberta.com.br

Vídeos em geral: youtube.com 

Palestras: ted.com  

Conteúdos educacionais da USP: http://eaulas.usp.br/portal/search.action

Textos acadêmicos: scholar.google.com.br


Tour Virtual: Google Expeditions

Modelos 3D - Google Poly



Comentários

  1. Olá professor Tori. Muito boas as dicas, confesso que a primeira para mim é mais complicada. (O ótimo é inimigo do bom) Já gravei aulas e ministrei aulas online, que em um dos clientes que ministro treinamentos são chamados de “treinamentos remotos”. A ideia da segmentação é uma regra de ouro, fica muito mais fácil de administrar. (indexar e recuperar aulas específicas). A sala de aula invertida encontro dificuldades em aplicar, pois muitos alunos ainda estão presos ao conceito de que a aula “tem que ser dada” e depois se eles quiserem, por conta própria irão revisar. Acho muito arraigado na cultura deles este o modelo tradicional. E por fim encontrei em ferramentas online interessantes opções de avaliação formativa, mas estes artefatos eu uso de maneira comedida, pois em excesso também atrapalha.

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    1. Muito boas suas colocações Evandro. Obrigado pelo feedback. Sucesso !!

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