Ensino Híbrido: Conceitos e Modelos

Críticas e/ou sugestões a este texto (versão 1.2) e/ou à taxonomia: envie aqui

(link para divulgar esta postagem: hibrido.esemd.org)

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Neste momento encontro-me escrevendo a terceira edição, revista e (bastante) ampliada, do livro “Educação sem Distância” (Tori, 2017). Ao realizar novas pesquisas sobre “Ensino Híbrido”, para desenvolver o novo capítulo 2 do livro, verifiquei que persiste a falta de consenso internacional, e muito menos em língua portuguesa, sobre conceitos e terminologia relacionados a esse tema. Na verdade, em relação à época em que escrevi a segunda edição do livro, a situação ficou muito pior. Isso porque, com a pandemia, problemas de inconsistências que eu já previa iriam surgir no futuro, à medida que a hibridização se intensificasse, se apresentaram em poucos meses. Agora temos “EaD”, “ensino remoto”, “ensino simultâneo”, “ensino híbrido”, “ensino blended”, “mixed learning, entre outros conceitos e termos relacionados ao ensino híbrido.

O surgimento, por exemplo, do "Simultaneous Learning" (quando parte dos alunos encontram-se fisicamente presentes na sala de aula física, enquanto outros participam, com presença virtual, da mesma aula), trouxe novos desafios conceituais. Outro problema se refere à terminologia em português. Tradicionalmente, vimos traduzindo "blended learning" por "ensino híbrido". Apesar de não ser uma tradução perfeita, não gerava nenhuma dúvida e era um termo bem aceito. Implícita no conceito de "blended learning" está a perfeita articulação entre atividades realizadas em espaço virtual e as desenvolvidas em espaço físico. Ou seja, não é qualquer mistura de virtual e físico que poderia ser denominada "blended". Também devido à pandemia, surgiram misturas improvisadas, emergenciais e adhocs, que não poderiam ser chamadas "blended". Alguns textos em inglês passaram então a denominar "hybrid learning" misturas quaisquer, reservando "blended learning" para modelos mais consolidados e testados. Mas em português já estávamos usando "ensino híbrido" com significado de "blended learning", ocasionando uma colisão (dois conceitos diferentes com a mesma tradução em português).

Além disso, tanto na literatura nacional quanto na internacional, há uma mistura de métodos, modelos e conceitos. Muitas taxonomias (classificação de conceitos) do ensino híbrido misturam modelos específicos, como “rotação por estações” e “sala de aula invertida”, com a própria definição de ensino híbrido.

Outro ponto que me incomoda há anos, mas agora tornou-se mais crítico, é o uso em português do termo "presencial" exclusivamente para atividades desenvolvidas em espaços físicos (conceito em inglês denominado de "face-to-face" ) e de "não-presencial" para as atividades realizadas em espaços virtuais. Atividades síncronas são presenciais, sejam realizadas online ou sob um mesmo teto. Não fosse assim, não poderíamos lançar presença para alunos em aulas online síncronas (ao vivo), nem poderiam ser válidas decisões tomadas em reuniões oficiais realizadas virtualmente, pois nenhum dos participantes estaria presente. Apesar do incômodo, o uso dessa terminologia "presencial-não presencial" não encontrava nenhum tipo de dubiedade e cumpria razoavelmente bem sua função. No entanto, com o surgimento da modalidade "simultânea", em que os alunos podem participar remotamente de atividade realizada em sala de aula física, juntamente com outros alunos fisicamente presentes, esse conflito terminológico ficou mais forte e evidente.  Por isso considero mais adequado definir "ensino híbrido" como a realização de parte das atividades em "espaços físicos" e parte em "espaços virtuais" (ou por intermediação de espaços virtuais), entendendo que fica mais claro e elegante que caracterizá-lo como mistura de "atividades presenciais e não presenciais" (até porque no ensino tradicional já existia essa mistura de atividades presenciais e não presenciais, na forma de "lição de casa").

O foco apenas na questão dos espaços, e não em outros tipos de hibridizações, se justifica pelo fato de que mesclar metodologias, práticas, técnicas, mídias, tempos, entre diversos outros aspectos, é, e sempre foi, inerente ao processo de ensino-aprendizagem, independente do espaço em que ocorra, não necessitando de uma denominação diferenciada. A denominação “ensino híbrido” deve, portanto, ser reservada para a mistura entre espaços virtuais e espaços físicos. Essa mistura, por sua vez, pode se dar de diferentes formas, sendo relevante diferenciá-las.

Desde a primeira edição do livro "Educação sem Distância", lançada em 2010, e em artigos ainda mais antigos, eu já defendia o modelo híbrido como sendo o ideal para a educação. A educação deve ocorrer em espaços físicos e/ou virtuais, sem que as distâncias, sejam essas geográficas, temporais ou transacionais, possam ser percebidas pelos aprendizes. Uma "educação sem distância" deve, portanto, ser híbrida e apoiada por tecnologias e metodologias para redução de distâncias. Esse tipo de abordagem, espero, deve ser cada vez mais dominante, até se chegar no momento em que toda educação seja híbrida e "sem distância", não havendo mais necessidade dessa diferenciação e podendo voltar a ser chamada apenas de "educação".  Nesse sentido, o

Onlife Manifesto (Floridi, 2015), publicação resultante do projeto [Iniciativa Onlife, lançado pela Comissão Europeia], onde se defende o fim da distinção entre o offline e o online(Moreira & Schlemmer, 2020)

Com o intuito de contribuir para uma maior clareza nas discussões e aplicações dos modelos educacionais híbridos, desenvolvi uma proposta de taxonomia para a educação, sob a perspectiva da combinação entre físico e virtual no ensino, sintetizada no diagrama abaixo. Essa classificação dos conceitos, que estou chamando de “Taxonomia EsemD”, será adotada no livro “Educação sem Distância” e em meus outros trabalhos e publicações daqui para a frente. À medida que os conceitos e modelos evoluírem, eventuais ajustes serão realizados nessa classificação. Caso venha a surgir uma melhor e/ou mais abrangente farei as adaptações devidas2.

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1 apesar de a tradução literal de learning ser “aprendizagem”, ainda é mais comum em língua portuguesa se usar “ensino”

2 no mesmo dia em que divulguei a versão 1.0 deste documento, recebi a indicação de duas importantes e recentes publicações (Moreira & Schlemmer, 2020) e (Schlemmer & Moreira, 2020), as quais também propõem revisão de conceitos, paradigmas e terminologia na educação mediada por tecnologia; a partir de uma rápida leitura preliminar desses textos, já extrai a citação sobre a Iniciativa Onlife; certamente vou levar em consideração as propostas desses autores para as próximas versões desta taxonomia e para o capítulo 2 do livro.

Uma Taxonomia para o Ensino Híbrido


Educação” abrange diversos aspectos, tais como “filosofia da educação”, “pesquisa em educação”, “gestão educacional”, “design educacional”, entre outros. No entanto, a taxonomia aqui apresentada e discutida se refere exclusivamente à vertente ensino-aprendizagem, que é denominada apenas de “Ensino”, por ser o termo mais comumente empregado em língua portuguesa (em inglês se usa mais o termo “Learning”). E dentro desse aspecto, apenas a relação dos espaços (físico e/ou virtual) utilizados em atividades de ensino-aprendizagem são considerados.


Ensino” pode ser formal ou informal (alguns autores diferenciam “não formal” de “informal”, mas há um problema lógico aqui, porque “não-formal” significa “tudo que não seja formal”, o que implica que “informal” também é “não-formal”). Dessa forma, todas as classificações que vêm abaixo de “Ensino” podem ter versões “formais” ou “informais”, o que não altera os conceitos (podemos ter “ensino híbrido” formal ou “ensino híbrido” informal, mas a definição de “ensino híbrido” será a mesma).


Espaço Físico” se refere a atividades de “ensino-aprendizagem” desenvolvidas em locais físicos, popularmente chamados de “feitos de cimento e tijolos”, tais como escola, biblioteca, residência, empresa, centro cultural, clube, centro de convenções, sala de aula, sala de estudo, auditório, entre outros. Nos espaços físicos são realizados os tradicionais cursos chamados de “presenciais”. Eu não considero adequado chamar de “presenciais” apenas as atividades realizadas em espaços físicos, uma vez que é possível desenvolver atividades em que todos estejam presentes, via teleconferência por exemplo, compartilhando-se espaços virtuais. Prefiro chamar tais cursos (ou atividades) de “cursos (ou atividades) em espaços físicos”.


Espaço virtual” se refere a atividades de “ensino-aprendizagem” desenvolvidas em ambiente digital, online ou offline, tais como email, blog, vídeos, documentos compartilhados, games, realidade virtual, realidade aumentada, redes sociais, AVA (Ambientes Virtuais de Aprendizagem, ou LMS, Learning Management System), entre outros. Não me agrada os termos “educação a distância” ou “educação remota”, porque destacam a barreira que não pode existir para que a educação aconteça e que, de fato, são eliminadas por meio de tecnologia digital.  Prefiro chamar tais cursos (ou atividades) de “cursos (ou atividades) em espaços virtuais”.


Ensino Híbrido” se refere a atividades, disciplinas ou cursos que mesclam atividades em espaços físicos com atividades em espaços virtuais. O “ensino híbrido” pode ser “fixo” ou “flexível”. Na forma “flexível”, o aluno pode fazer opções, de conteúdos e/ou de formas e/ou de espaços. Todas as classificações que vêm abaixo de “Híbrido”, portanto, podem ser oferecidas tanto na forma fixa quanto na forma flexível.  

Ensino Híbrido Fatiado

Em modelos do tipo “híbrido fatiado, há uma decomposição de cursos ou disciplinas entre partes oferecidas no modo online e outras em modo fisicamente presenciais. A mistura entre físico e digital pode se dar no nível da estrutura do programa, pela justaposição de disciplinas, ou em nível de disciplina, pela justaposição de atividades. As atividades e/ou disciplinas desenvolvidas na modalidade online são independentes no planejamento e execução, não se articulando diretamente com as que são oferecidas em sala de aula física.


Dentre os diversos modelos de ensino híbrido fatiado que podem ser implementados temos aqueles em que uma parte da carga horária de um curso presencial é oferecida a distância, conforme a legislação brasileira já prevê para cursos superiores. Em geral são estabelecidos dias da semana em que o aluno deve frequentar a sala de aula e dias em que poderá estudar remotamente. A divisão da carga pode ser entre disciplinas, com algumas sendo oferecidas online e outras localmente, ou pelo fatiamento da carga de cada disciplina entre atividades online e locais.

Ensino Híbrido Blended

No “ensino blended, há interdependência entre atividades realizadas online e fisicamente presenciais. Pode ser rotativo ou enriquecido. Desenhar e executar modelos de ensino blended é mais complexo e sujeito a dificuldades de implementação que modelos simplesmente híbridos.


No “ensino blended rotativo” os alunos revezam-se entre atividades locais e remotas. Há vários exemplos na literatura de modelos rotativos, como: por estações, individual e sala de aula invertida Bergmann e Sams (2012) e (Roehling, 2017). Mais detalhes podem ser vistos nos livros organizados por Bacich et. al. (2015), Horn e Staker (2015a) e Horn e Staker (2015b).


No modelo “enriquecido” há uma complementação do virtual no físico ou vice-versa. Pode ocorrer em nível de curso, disciplina ou atividade. Pode ser “virtual enriquecido”, quando a espinha dorsal do curso é virtual e o enriquecimento se dá por atividades em local físico, ou “físico enriquecido”, quando a espinha dorsal do curso é no espaço físico e o enriquecimento se dá por atividades realizadas em espaços virtuais.

Ensino Híbrido Simultâneo

No “ensino híbrido simultâneo”, os alunos podem participar da mesma atividade tanto a distância quanto localmente. Esses modelos são ainda bastante experimentais e de difícil execução. Mas se bem implementados poderão propiciar uma inovação disruptiva, pois permitirão que alunos com dificuldade de locomoção ou acesso à escola física, seja temporária ou permanentemente, participem normalmente (ou quase) das aulas presenciais. Até mesmo o professor poderá eventualmente entrar online para orientar as atividades dos alunos, estejam eles na sala de aula física ou virtual. Essas aulas também poderão ser gravadas e disponibilizadas como conteúdo online adicional. Mas alguns cuidados precisam ser tomados para que esse modelo seja bem sucedido, tais como:


- o aluno online precisa se sentir presente na sala de aula física, assim como seus colegas precisam sentir sua presença; para tanto o aluno online precisa ver, e ser visto por, todos; telões, câmeras e microfones precisam ser estrategicamente distribuídos na sala de aula a fim de garantir tais requisitos;


- o professor precisa interagir, ver e ser visto tanto pelos alunos locais quanto pelos remotos; um telão e uma câmera no fundo da sala, que permitam ao professor interagir simultaneamente com os alunos fisicamente presentes e remotos é uma boa solução;


- acesso online via dispositivos móveis dos alunos na sala de aula física, com recursos de chat, videoconferência, votação e acesso a conteúdos virtuais, facilita a interação aluno-aluno e aluno-conteúdo;


- regras de conduta e interação precisam ser bem definidas e o cumprimento delas monitorado pelo professor e assistentes;


- as atividades precisam ser planejadas para que tanto alunos fisicamente presentes quanto os que participam virtualmente possam desenvolvê-las plenamente; podem ser feitas adaptações nas atividades realizadas remotamente, como também podem ser providenciados kits de materiais para os alunos remotos;


- quando houver atividades em laboratório físico é necessário que o aluno remoto possa observar instrumentos, controles, materiais e resultados em todos os detalhes; ele atuará com a ajuda de colegas e/ou acionando os instrumentos e equipamentos remotamente;


- deve haver um ou mais assistentes na sala de aula física e no ambiente virtual, a fim de que o professor possa se concentrar na didática e nas interações com os alunos, enquanto os assistentes resolvem questões de logística, acesso, dúvidas, chat e outras questões paralelas.

Referências

BACICH, L.; TANZI NETO, A.; TREVISANI, F. M. (Org.). Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. Porto Alegre: Penso Editora, 2015

BERGMANN, J.; SAMS, A. Flip your classroom: reach every student in every class every day. Washington: ISTE, 2012.

HORN, M. B.; STAKER, H; Blended: Using disruptive innovation to improve schools. John Wiley & Sons, 2015a.

HORN, M. B.; STAKER, H; Blended: Usando inovação disruptiva para aprimorar a educação. Editora Penso, 2015b.

MOREIRA, J. A. M.; SCHLEMMER, E. Por um novo conceito e paradigma de educação digital onlife. Revista uFG, v. 20, n. 26, 2020.

ROEHLING, P. V. Flipping the college classroom: An evidence-based guide. Springer, 2017.

SCHLEMMER, E; MOREIRA, J. A. M. Ampliando conceitos para o paradigma de educação digital onlife. Interacções, v. 16, n. 55, p. 103-122, 2020.

TORI, R. Educação sem distância: as tecnologias interativas na redução de distâncias em ensino e aprendizagem. Artesanato Educacional LTDA, 2017.

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